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domingo, 19 de janeiro de 2014

Espelho Onde se "Revê" e se Descobre a Própria Imagem o Movimento Ecomuseu Sepetiba – Desafios e Perspectiva

Por: Bianca Wild
Resumo:
O bairro de Sepetiba,localizado na cidade doRio de Janeiro, vem ao longo de sua história sofrendo mudanças que levaram a um processo de estagnação politica e econômica, provocada, em especial, nos ultimos anos, pela dagradação ambiental sofrida, seja pela criação de um distrito industrial no bairro de Santa Cruz  e /ou pela criação de um porto na cidade de Itaguaí. O espelho é uma analogia que simboliza um dos eixos de ação do Movimento Ecomuseu de Sepetiba, que é a recuperação da auto-estima dos moradores.
O ecomuseu surge assim, como um instumento que nos permite reconhecer e redescobrir o que nos dá identidade, mesmo que no presente, o que nos configura não é somente o belo do passado, mas o desejo de transformação, de mudança para um futuro melhor. Nesse processo de três anos, o ecomuseu vem conquistando mais espaço e mobilizando cada vez mais o bairro de Sepetiba.
Palavras chave: Identidade – Memória – Patrimônio - Mobilização
O discurso que prioriza o desenvolvimento social já é lugar comum em nossa sociedade, contudo basta um olhar mais aguçado para constatarmos que na maioria das grandes cidades do nosso colossal Brasil nunca há um planejamento adequado de infra-estrutura para a população. Desenvolvimento / crescimento não são análogos, e em nosso caso a urbanização desenfreada, a febre industrial, o deslocamento de populações inteiras principalmente durante o governo Lacerda, dentre outros fatores contribuíram e muito para atual situação da região aqui apresentada, Sepetiba, bairro da cidade do Rio de Janeiro. Identificar esse fenômeno social exige um exame mais aprofundado, entretanto faremos aqui uma breve análise das transformações sociais; das relações de poder envolvidas na questão a ser avaliada.
O presente texto tem por escopo oferecer subsídios para a compreensão do fenômeno social que tem sua visibilidade assegurada pelo processo de degradação e preterição da memória do bairro carioca de Sepetiba. Adotando uma postura reflexiva que prima, sobretudo, pelo debate e pela valorização desta localidade. Prevê-se ainda, como base preliminar o teste das teias discursivas nas quais se opera a negação da identidade e dos símbolos dessa localidade que tudo teria para requerer o status de um centro alternativo da cidade do Rio de Janeiro.
Um longo caminho a ser trilhado
O dia 25 de outubro de 2009 nunca mais será esquecido pelos precursores do Movimento Ecomuseu Sepetiba, pois desencadeou um processo de reconhecimento, uma “redescoberta”. Neste dia o bairro foi presenteado com a sua inclusão no roteiro da I Jornada de formação em Museologia comunitária realizada pela SMC/ Coord. de Museus, Ecomuseu de Santa Cruz, NOPH, ABREMC, UMCO, através da realização de uma Roda de Lembranças no Centro Comunitário Santo Expedito (Sepetiba).
Iniciava-se então o “Movimento Ecomuseu Sepetiba”. O reconhecimento enquanto processo ecomuseológico encaixou-se perfeitamente nas necessidades da comunidade e do meio ambiente da região, pois o Ecomuseu vai além da ecologia, seu conceito é muito mais complexo, o termo está ligado a numerosos outros conceitos como o de território, espaço como objeto de interpretação, reserva ambiental dentre outros, lugar de memória viva. Sepetiba é rica em histórias e memórias, e ainda existem muitos moradores e moradoras interessados em perpetuá-las, sabendo que o ecomuseu é representativo ele deve decorrer do território e de sua população, como afirma Hugues de Varine é essencialmente cooperativo, e justamente nesta questão encontra-se o nosso grande desafio, a participação e a mobilização dos habitantes. (VARINE, 2006)
Devido a todo o processo de degradação ambiental ocorrido na localidade aqui tratada, famílias inteiras viram-se desamparadas economicamente, pois viviam da pesca, do turismo, e de todo o resto de atividades econômicas relacionadas com o meio ambiente, com a baía de Sepetiba. Com a degradação da baía o único meio de subsistência dessas famílias foi-lhes tirado, já não podem viver exclusivamente da pesca, toda a comunidade era voltada para atividades relacionadas ao turismo e a pesca, conseqüentemente dependia das temporadas de veraneio, há necessidade de um trabalho intenso e ininterrupto para ajudar na recuperação da economia local, da auto-estima dos moradores e no desenvolvimento.
Nas palavras de Odalice Priosti o Ecomuseu:
“é um espaço de relações entre uma comunidade e seu ambiente natural e cultural, onde se desenvolve, através das ações de iniciativa comunitária, um processo gradativamente consciente e pedagógico de patrimonialização, apropriação e responsabilização dessa comunidade com a transmissão, cuidado e transformação do patrimônio comum e, consequentemente, com a criação do patrimônio do futuro”. (apud: MAGALDI, 2006)
O Ecomuseu ao labutar em favor do desenvolvimento da comunidade deve levar em conta os problemas e questões colocadas em seu âmago tratando-os de maneira crítica analítica e estimulando o processo de conscientização, mobilização e a criatividade da população, para isso utilizando as informações do seu passado e presente para que ela venha a pensar o futuro de forma questionadora e esperançosa. Logo “(...) todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje (...). Temos de saber o que fomos, para saber o que seremos”. (FREIRE, 1982, p. 33)
Sepetiba foi palco de importantes acontecimentos durante as três principais fases da história do país: Brasil Colônia, império e república; povoado pelos corajosos índios Tamoios, foi aldeamento jesuítico, cenário da batalha naval contra os holandeses, sua baía e praias serviram de local de desembarque para o quinto do ouro, tráfico do mesmo, tráfico de escravos, de pau-brasil, cenário da luta dos corsários dentre outros muitos acontecimentos. Personagens históricas passaram pelo bairro de Sepetiba e navegaram pela baía reconhecendo sua beleza e tranqüilidade, como D. João VI, D. Pedro I, D. Leopoldina, José Bonifácio, o Visconde de Sepetiba, Jean Baptiste Debret dentre muitos outros; abrigou republicanos e anti-republicanos; foi cenário da tragédia ocorrida durante o período de transição Império/República: o fuzilamento dos marinheiros na ilha da pescaria (Ilha dos marinheiros) saraus, touradas eram realizados constantemente, as cirandas características da população caiçara local, dentre muitos outros eventos não disseminados ou com sua veracidade ainda não comprovada.
A partir de uma série de movimentos, iniciativas individuais e de grupos locais a situação de descaso, “esquecimento” e a consequente desvalorização por parte dos moradores (as) vem se transformando, desde a década de 1990 com ações como os “abraços” simbólicos na praia de Sepetiba, o enterro simbólico da praia etc.,realizados por grupos como o S.O.S baía de Sepetiba, CORES (comissão de revitalização de Sepetiba) etc. contudo o descaso das autoridades competentes para com a região é notório. No momento estão sendo realizadas obras de reabilitação ambiental na praia de Sepetiba, uma pequena extensão da praia de Sepetiba foi aterrada por mantas de geotêxtil e areia, entretanto Sepetiba possui outras duas praias, a do Recôncavo ou Dona Luíza e a praia do Cardo, onde nada está sendo realizado.
A roda de lembranças e a comemoração do aniversário do bairro que havia sido esquecida desde o inicio da década de 1990, voltando a ser realizada no ano de 2008 despertaram de certa forma um orgulho que havia adormecido nos moradores (as) do local, pois a partir deste ano foram expostas fotografias antigas, textos, livros sobre o bairro, matérias de jornais antigos etc., que possibilitaram aos novos moradores a “descoberta” do seu bairro e aos antigos a “redescoberta”.
Quando fazemos a analogia ao espelho, podemos ser mal compreendidos, principalmente em uma localidade comprometida, com sua paisagem “desfigurada” e degradada [1] como Sepetiba, entretanto de forma alguma pretendemos culpabilizar os moradores, o que ocorre neste local é conseqüência de todo um sistema, de uma divisão da cidade que vem se configurando há muito tempo, desde a primeira república, a divisão das regiões da cidade, dos bairros mostra os seus objetivos, separar a população e priorizar determinadas regiões / localidades, pouco se sabe e pouco se deseja saber sobre as relações de poder que estão na base da dialética da exclusão, como algumas localidades foram de fato excluídas e quais foram as lutas ainda longe de serem concluídas que nos trouxeram até esse momento, no qual, pelo menos tais lutas tornaram-se verdadeiras.
Como dito anteriormente, a realização de uma oficina durante a I Jornada de Formação em Museologia Comunitária despertou nos moradores do bairro a necessidade de organizar e orientar o seu desenvolvimento com participação democrática, usando a “ferramenta” Ecomuseu.
Isso nos gera novas questões que remetem ao tema deste encontro. Como permitir que quem deseja participar ativamente do processo do nosso Ecomuseu, realize essa atividade da melhor maneira possível? A resposta mais assertiva é a Capacitação dos Atores do Desenvolvimento Local em sepetiba.
Nestes quase três anos, nos encontramos em um processo de envolvimento comunitário, ou seja, tentando abranger a comunidade como um todo; o Movimento Ecomuseu Sepetiba vem realizando uma série de atividades, que em primeiro momento, motiva e reune um grupo de pessoas que buscam liderar, ou melhor, facilitar esse processo ecomuseológico. Mas trata-se de um processo lento e difícil, gradual, a população local é habituada com politicagem e espera imediatismo, o que em um processo ecomuseal não é possível.
Nesse contexto, estamos estudando e adaptando à nossa realidade, as técnicas aprendidas aqui no Brasil e em outros países, em especial, com a experiência mexicana, nos permitem avançar mais no processo de sensibilizar e despertar nos moradores o sentimento de pertencimento, elemento fundamental para uma participação comunitária efetiva.
A nossa perspectiva para a capacitação de nossos atores está focada no diálogo com as diversas instituições do bairro, onde nos preocupamos em aumentar a rede de participantes e na elaboração de um plano de trabalho anual com a realização de oficinas sobre museologia comunitária, participação e liderança comunitária, aprofundamento nos conhecimentos do território e da história local, para que esse grupo possa mobilizar de maneira dinâmica, a comunidade do bairro de sepetiba.
Referências bibliográficas:
FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. São Paulo: Cortez Editora, 1982.
____________Educação como Prática de Liberdade. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e     
     Terra, 1983.
_____________Pedagogia da Autonomia. Saberes Necessários a Prática Educativa.
33 ed.  São Paulo. Paz e Terra, 1996.
MAGALDI, Monique Batista. O Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro de
Santa Cruz: Estrutura e Propostas. 2006. Disponível
em:
VARINE, Hugues. O Museu Comunitário é Herético?. Trad. O.M.P. Quarteirão, Rio de Janeiro, Abr, p.12, 2006.

[1] *Bianca Wild – Cientista social/FEUC-FIC/RJ e Especialista em gênero e sexualidade UERJ/ PPGMS ;  Articuladora do movimento  Ecomuseu  Sepetiba  - Rio de Janeiro / Diretora de Raça, gênero e etnia da UNEGRO pólo I.A.O/ Sepetiba / Docente SEEDUC RJ -  biancawild@gmail.com
[2] Para entendermos como as modificações na paisagem natural deste bairro, os reflexos desse crescimento e “desenvolvimento” influenciaram na vida, na construção das identidades dos moradores (as), na auto-estima etc. precisamos entender  a paisagem enquanto patrimônio e alguns conceitos básicos como o de   lugar enquanto espaço onde vivenciamos nossas experiências e o de paisagem, que pode mostrar como se organizou uma sociedade em um determinado momento histórico, ao longo dos anos de sua existência.
“A paisagem não é boa, nem má, e sim um reflexo, e faz parte do ambiente cultural (cultura viva- paisagem / gestão coerente da paisagem).”O objetivo de qualidade paisagística deve ser formulado pelas autoridades competentes, não se deixando de levar em consideração a responsabilidade e a participação da comunidade nesse procedimento.(...) a coletividade, a interação na gestão, criação e elaboração de programas de desenvolvimento é imprescindível (indústria/empresa  intervenções sobre os domínios para o desenvolvimento a partir de uma ação conjunta).”(Anotações pessoais da conferência: Comunidade, Patrimônio, Paisagem e Desenvolvimento Local - ministrada por  Hugues de Varine,  no Colóquio: Comunidade, Indústria e Desenvolvimento Local – O Diálogo Possível  - 2011)

Reflexões acerca do que sabemos sobre a história de Sepetiba

Reflexões acerca do que sabemos sobre a história de Sepetiba

Reflexões acerca do que sabemos sobre a história de Sepetiba
Por Bianca wild


Até então uma das únicas referências bibliográficas acerca da história de nosso querido bairro de Sepetiba era o livro do escritor e morador de Sepetiba Alcebíades Rosa “A história de Sepetiba” porém, ao “revisitarmos” documentos, ouvirmos relatos etc. percebemos que muito do que sabemos e do que lemos é um tanto quanto contraditório.

A obra de Alcebídes é importantíssima para nós, moradores do bairro de Sepetiba, e merece o status de precursora, entretanto não possuí rigor científico, no que concerne a história e memória do bairro pouco ,ou quase nada foi escrito e divulgado a respeito, inclusive até mesmo órgãos públicos precisaram consultar textos publicados por nós em diversos sites para possuírem referencias quanto a história do bairro e, agora com a continuidade de nossas pesquisas também serão textos com alguns equívocos, pois não estamos livres de erros e contradições.
Eis o motivo : ao investigarmos alguns documentos notamos um dos primeiros erros:
“Essa praia tem sua história , como todos os lugares, (...) nos últimos dias do século passado (XIX) havia em Sepetiba uma linha regular de navegação para os portos do estado do Rio de Janeiro e São Paulo, essa linha dispunha de dois vapores confortáveis, embora pequenos, eram o Angra dos Reis e o Sepetiba, uma ponte de quase duzentos metros de boa argamassa, ligava a ilha da pescaria (hoje ilha dos marinheiros) a terra firme e um bonde de tração animal, partia diariamente da estação de Santa Cruz para Sepetiba repleto de passageiros (...)
Trecho retirado de documento sobre o fuzilamento de 1893.

Acreditávamos que os vapores que circulavam em nossa baía eram o Eco, Lamego e Uranus, de origem militar, transformados em transporte de passageiros, porém vemos que a história é diferente, possuíamos apenas dois vapores o Angra dos Reis e o Sepetiba, pequenos porém de acordo com o texto funcionais e úteis a população.


Aqui outros trechos do referido documento:


“(...)Embora a Ferro Carril fizesse trafegar seus bondes diariamente, pela manhã e a tarde, os passageiros que se destinavam aos estados situados, vinham no próprio dia da viagem, tal era portanto a confiança que tinham na regularidade das viagens, que estavam em correspondência com o horário da navegação.

Um sobrado bem construído cujos vestígios ainda se conservam na praia de Sepetiba era o centro das operações da companhia.(...)”

Esse fato, da credibilidade e freqüência dos bondes e a correspondência com os horários dos vapores não nos foi contado, do sobrado onde localizava-se o centro de operações da companhia não existem mais vestígios, ou será que o prédio ao lado da colônia Z-15/ que já foi Z-9 e hoje não sei exatamente qual é , se situa é remanescente deste sobrado? Por que tantos fatos e tantas histórias nos foram omitidos, negados?


Mais um trecho:


“O Senhor Caldas, engenheiro chefe do tráfego, que com a extinção da companhia fez-se funcionário público até que mais tarde veio a falecer,seu nome se liga hoje a um recanto da praia (praia do Caldas). Nos dias dos vapores, as famílias praieiras vêm as manhãs divertidas a espera dos bondinhos que não tardam a chegar.”


Outro questão controversa a respeito de nossa história: o nome praia do Cardo. Alguns se referem a este recanto como denominado praia do Cardo devido a abundância de uma planta que existia por ali, o cardo pertence à família das Asteraceae e cresce em locais rochosos, sobretudo em terrenos barrentos, podendo ser encontrado na forma selvagem ou cultivada, o que pode reforçar esta tese, pois ali era um local barrento de acordo com alguns documentos e relatos. Outra versão diz que a localidade foi assim denominada devido ao nome de um morador Chamado Ricardo, apelidado “Cardo”, qual seria a verdadeira? E a praia do Caldas? Qual a versão? Por que essas histórias não foram divulgadas e contadas nas escolas locais ? Por que essa falta de valorização até bem pouco tempo atrás?


Outro trecho:

“(...)Em 6 de Setembro de 1893, estalou no Rio de Janeiro a revolta da armada com o almirante José Custódio de Melo a sua frente. Todos os navios (...) no porto fosse de guerra ou mercante, hastearam a bandeira da revolução, sendo que alguns haviam saído barra a fora, rumo ao sul. Depois mais outros.Era então boato corrente, veiculado pelos passageiros ou curiosos que chegavam do Rio, que Sepetiba seria ocupada militarmente. Ora, o corpo do exercito estacionado em Santa Cruz, estava sendo movimentado a toda pressa para descer, a fim de ocupar os pontos estratégicos indicados por Floriano Peixoto.Por outro lado, esses militares mesmos, transmitiam aos pescadores e suas famílias a notícia da segunda ordem recebida no quartel de Santa Cruz, a qual dizia que uma parte do corpo ficaria em Santa Cruz para defender um desembarque que estaria iminente em Sepetiba.(...)”
“(...)Agora os bondinhos, os vagões e outros transportes usados nos serviços da companhia não tinham mais horários.Sepetiba, como Santa Cruz em alvoroço experimentou, pela primeira vez, a sensação que o medo da guerra cria.mas tudo isso ficou pela metade, nenhum navio apareceu em Sepetiba. E dessa localidade mesmo, viam os sepetibanos a passagem de vasos revoltados para o sul.De noite, a luz forte de possantes holofotes tudo iluminava e eles acautelavam-se da melhor maneira possível. Passados os primeiros dias de inquietação, os pescadores retomaram o seu serviço de pesca e se acostumaram, pouco a pouco, paisanos e soldados, na vida de precauções que os acontecimentos impunham.(...)”
“(...)Foi ocupado o morro da faxina como os outros, onde antigamente os coloniais haviam deixado vestígios de fortificações e velhos morteiros de bronze, o que se vê até hoje em alguns recantos da praia.
Decretada a criação da guarda nacional com bons ordenados, Sepetiba foi contemplada e muitos receberam a notícia com bastante prazer, sentindo-se honrados com as suas divisas amarelas de cabos e sargentos.Também conhecemos ali alguns oficiais do primeiro posto nomeados nos primeiros decretos. Dissemos que a pacata Sepetiba tinha mudado seu modo de viver com os acontecimentos decorrentes da Revolta da armada,tendo mesmo alguns naturais sido recrutados para a guarda nacional.Agora podemos acrescentar que este estado de coisas prolongou-se por alguns meses, porque de toda parte um grande número de cidadãos foi chamado ao serviço das armadas de Sepetiba, porém, preferia a guarda - nacional, (...)era de mais fácil acesso, as divisas amarelas da Guarda – Nacional convidava-os e um com número de filhos de pescadores apareceram logo nas suas fileiras(...)”

Se vê hoje resquícios deste período? Não! Nada remete os moradores atuais a esses tempos, inclusive diz-se que o “Morro do Ipiranga” hoje tombado como patrimônio natural e cultural juntamente com o Coreto e a praia do Recôncavo e do Cardo possuía também esses resquícios. Outra questão: por que não tombar a praia de Sepetiba e a Igreja de são Pedro?

Podemos verificar neste trecho outros equívocos existentes nas obras e textos sobre Sepetiba: “(...)na Marambaia e na Ilha grande, uma vez outra, havia troca de tiros, com os canhões dos revoltosos e os pequenos fortes do litoral, até que num dia de janeiro de 1894, pela tardinha, surgiu na praia de Sepetiba o pequeno vapor Lamego, forçado que foi para entregar-se,pois, suspeitava-se que o navio iria incorporar-se aos revoltosos.Isso proporcionou aos moradores de Sepetiba e Santa Cruz dias de grandes sustos e surpresas.A todo momento os boatos surgiam na boca daquele povo,sempre desacostumado aos fatos belicosos da revolução.
E tinham razão para isso, porque com o Lamego, foram capturados muitos marinheiros, e a justiça marcial não se fez esperar, o comandante (...) um major bastante impulsivo, Florianista ao extremo, fez levar vinte e um (21) deles para a Ilha da Pescaria, onde até então havia o porto da companhia Rio – São Paulo, e mandou fuzila-los sem mais delongas. E tudo só caiu muito mal no animo daquela gente.Durante muitos anos, ali (...) eram vistas cruzes, indicando as suas sepulturas.Míseros brasileiros que não eram culpados e sim obedientes às ordens de seus comandantes no mar!(...)”
“(...)E com esse caso ocorrido, que nunca ficou bem apurado, surgiram os boatos que após a chegada do Lamego, que ali estava ancorado chegariam para vir busca-lo outros navios de guerra.E, um dia, por causa disso,noticiou-se a presença do Aquidabã, que já estaria em Sepetiba e forçara a barra do Rio Ita para entrar em Santa Cruz, onde tinha sede o 5º regimento de artilharia.
Isso produziu quase um pânico, sendo que o próprio diretor do Matadouro público, o coronel reformado, Florambel da Conceição, chegou a preocupar-se tanto, que fez a secretária, sua filha, transmitir despachos telégrafos para Sepetiba e outros pontos, pedindo informações.(...)Entre Sepetiba e a praça Santa Cruz, que tudo isso era considerado zona de guerra, transitavam constantemente coronéis com seu estado maior. Eram eles: o Dr. Fernando Continentino, Teixeira da Mota, Avô do Almirante, tão conhecido hoje, Álvaro Alberto, e ainda o coronel Jorge Pinho, depois escrivão de Campo-grande ,visto que também Campo-Grande era subordinado ao comando de santa Cruz.(...)”


O Aquidabã esteve realmente em “águas Sepetibanas”? Por que estes momentos cruciais e importantes para a formação de nosso país ,de nossa “identidade nacional” não foram transmitidos?

Esses e outros equívocos estão sendo apurados pelo grupo de estudos do Movimento Ecomuseu de Sepetiba, por que como diz o lema do NOPH Santa Cruz/ Ecomuseu: Um povo só preserva aquilo ama. Um povo só ama aquilo que conhece.”
E como dizemos: Sepetiba está viva! Tem história! E vontade de transformação: Somos “Espelho onde nos revemos e descobrimos a nossa própria imagem”

SEPETIBA NA ROTA DA INDEPENDÊNCIA


De Sinvaldo do Nascimento Souza


Sepetiba, o antigo povoado dos pescadores (...) testemunhou encontros importantíssimos que precedem o périplo de independência do Brasil.Depois da chamada “Revolução Liberal” da cidade do Porto, deflagrada em Portugal no ano de 1820, o rei D. João VI que se encontrava no Brasil foi obrigado a retornar para a Europa, correndo sério risco de perder seu lugar no trono.As “cortes lusitanas”, por sua vez, deram início às primeiras medidas que objetivavam reconduzir o Brasil à sua anterior condição de mera colônia subordinada aos interesses da metrópole.

As conquistas granjeadas ao longo de mais de doze anos, não se restringiram ao plano sócio-econômico-cultural ; determinados brasileiros, entre os quais os irmãos Andradas, não estavam mais dispostos a viverem sob o jugo das Cortes portuguesas, o que deixava claro que tais conquistas também se faziam sob o aspecto político.

Sepetiba, testemunha, já em Dezembro de 1821, a passagem de um emissário: Pedro Dias Pais Leme – que vindo do Rio de Janeiro seguiria em direção à província de São Paulo.Com a chegada dos decretos autoritários provenientes das “cortes lusitanas” e o aprestamento da fragata “União” que deveria reconduzir o príncipe regente (D. Pedro I) a Lisboa, foi iniciado no Rio de Janeiro um movimento que se destinava a receber assinaturas objetivando pleitear que D. Pedro I permanecesse no Brasil, o que já seria “um bom passo em direção da independência”.

Enquanto Paulo Barbosa da Silva era enviado a Minas Gerais, Pedro Dias Pais Leme seguia para São Paulo:

“ ... viajando a cavalo até Sepetiba e servindo-se de barco a vapor, provavelmente um dos primeiros introduzidos no Brasil, na viagem daí até Santos (ou de simples canoa, como asseveram muitos historiadores) Pais Leme chegou a São Paulo na noite de 23 de Dezembro de 1821 (...)”

Eis que entra em cena José Bonifácio de Andrada e Silva, cognominado “o patriarca da independência”, mas rechaçado por muitos quanto a essa lisonja, em particular por determinados setores da Maçonaria. Coube ao sexagenário santista redigir, com grandiloqüência exigida pelo estilo de época, uma carta, que bem definisse a disposição dos brasileiros, em particular, dos paulistas, de não se intimidarem mais perante a metrópole.A carta, sem qualquer exagero, pesava como uma declaração de predisposição à independência.

Dizia o velho Andrada, entre outras coisas: “(...) V.ª real deve ficar no Brasil quaisquer que sejam os projetos das Cortes constituintes não só para nosso bem geral, mas até para a independência e prosperidade futura do mesmo Portugal. Se V.ª real estiver ( o que não é crível) pelo deslumbrado e indecoroso decreto de 29 de Setembro, além de perder para o mundo a dignidade (...) homem e de príncipe, tornando-se escravo de um pequeno número de desorganizadores,terá também que responder, perante o céu, do rio de sangue que decerto vai correr pelo Brasil (...)”

D. Pedro I ficou entusiasmado com aquela missiva, tanto que determinou logo a sua divulgação, embora a publicação somente fosse ocorrer no dia 8 de Janeiro (véspera do “dia do Fico”) nas páginas da “Gazeta do Rio”.

Os Paulistas não ficaram satisfeitos com apenas o envio daquela carta e logo nomearam quatro representantes para entregarem, no Rio de Janeiro, uma representação a D. Pedro I. Provenientes de Santos, viajaram embarcados em um navio a vapor até Sepetiba, onde chegaram em 17 de Janeiro. “ Sepetiba, como se sabe, fica perto de santa Cruz, local da antiga fazenda dos Jesuítas, incorporada aos bens da coroa, que D. João VI tanto freqüentava e de que D. Pedro I também muito gostava. Na ocasião da chegada de José Bonifácio e de seus companheiros, havia em Sepetiba, por causalidade, um carro de posta e nele partiram os viajantes em direção a Santa Cruz, tornando assim desnecessários os cavalos mandados pela Princesa D. Leopoldina, então refugiada com os filhos na fazenda real, em conseqüência de perturbações da ordem no Rio de Janeiro”.

Aliás, é bom que se diga que a fazenda de Santa Cruz, serviu , no I império, pelo menos uma outra vez para proteger a família Imperial: em 1831, quando os ânimos se acirravam contra o já imperador D. Pedro I, foi cogitada a vinda do monarca para cá e daqui organizaria uma resistência, o que não se concretizou, pois D. Pedro I resolveu abdicar o trono em favor de seu filho.

Foi em Sepetiba o encontro de José Bonifácio com D. Leopoldina, embora alguns historiadores afirmem que esta reunião teria sido realizada na sede do palácio imperial em Santa Cruz. Octávio Tarquínio de Sousa, na sua biografia de José Bonifácio afirma:

“A primeira mulher de D. Pedro I, dada a estudos de ciências naturais e seduzida pela causa da emancipação brasileira, deveria entender-se muito bem com José Bonifácio. Esperando a representação paulista, já no dia 16 ( Janeiro de 1822) D. Leopoldina estivera em Sepetiba, e , ainda para recebe-la, fazia no dia seguinte a mesma viagem a cavalo quando, no meio do caminho, entre santa Cruz e aquele lugar, a encontrou. Os paulistas e D. Leopoldina entretiveram conversa bastante cordial, sendo que a princesa não conteve o seu “sumo contentamento”, para repetir a expressão de documento oficial que resumiu as minúcias do encontro."

Já na madrugada do dia 18 de Janeiro de 1822 José Bonifácio e demais membros da comissão proveniente de São Paulo partiram para o Rio de Janeiro onde D. Pedro os aguardava.

O simples transito por Sepetiba de personalidades que participaram diretamente e efetivamente de fatos históricos que culminaram com a proclamação da independência do Brasil, já constituem exemplos edificantes para serem observados por todos os sepetibanos que lutam por melhores condições econômicas, culturais e sociais para aquele antigo povoado, colônia de pescadores (...).

domingo, 21 de julho de 2013

Eleição para diretoria da ABREMC - Gestão 2013/2016

A ABREMC – Associação Brasileira de Ecomuseus  Museus Comunitários foi fundada em Santa Cruz, Rio de Janeiro, RJ, no dia 15 de setembro de 2004, durante o III EIEMC ( III Encontro Internacional de Ecomuseus e  Museus Comunitários e X Atelier Internacional do MINOM.Neste período passou por duas gestões:   
Gestão 2006/2009: Presidente: Odalice Miranda Priosti – Ecomuseu Comunitário de Santa Cruz - RJ - Vice–Presidente: Rosana Lopes Turmina * - Ecomuseu de Itaipu – PR - Secretária: Yára Mattos – Ecomuseu da Serra de Ouro Preto – MG - Tesoureiro: Antônio Marcos de Oliveira Passos **– Museu Comunitário Mãe Mirinha de Portão – BA e Diretora de Comunicação: Laïs Fontoura Aderne *** – Ecomuseu do Cerrado –GO ( Suplente: Maria Terezinha Resende Martins – Ecomuseu da Amazônia – PA)
Gestão 2009/2012
Presidente: Maria Emília Medeiros de Souza- Ecomuseu de Itaipu – PR - Vice–Presidente:Odalice Miranda Priosti – Ecomuseu Comunitário de Santa Cruz - RJ - Secretária: Yára Mattos – Ecomuseu da Serra de Ouro Preto – MG - Tesoureira: Patrícia Berg de Oliveira - SME/ Porto Alegre - RS e Diretora de Comunicação: Maria Terezinha Resende Martins – Ecomuseu da Amazônia – PA





No dia 08 de março deste ano  ocorreu a eleição da nova diretoria da ABREMC, a chapa vencedora "Desafio, Resiliencia e Consolidação" não poderia possuir objetivos mais acertados e condizentes com o cenário atual da ecomuseologia e da museologia comunitária, é muito importante para Sepetiba essa eleição em especial, pois de certo modo oficializamos nossa entrada no "mundo" da ecomuseologia neste momento específico, nos tornando parte da associação que representa os Ecomuseus e museus comunitários;  além disso a eleição que ocorreu no dia internacional da mulher, não propositalmente elegeu uma diretoria composta só de mulheres! Segue composição da chapa eleita para gestão  2013/2016:


Presidente: Maria Terezinha Resende Martins – Ecomuseu da Amazônia - PA
Vice–Presidente: Yara Mattos - Ecomuseu da Serra de Ouro Preto - MG
Secretária: Odalice Miranda Priosti – Ecomuseu Comunitário de Santa Cruz - RJ
Tesoureiro: Bianca Wild - Ecomuseu de Sepetiba -RJ
Diretor de Comunicação: Nádia Almeida – Ecomuseu de Maranguape - CE

CONSELHO FISCAL Gestão 2013/2015
- Giane Vargas Escobar - Museu Treze de Maio – Santa Maria –RS
- Ivan Coelho de Sá – UNIRIO -RJ
- Luiz Antônio de Oliveira- Museu da Maré –RJ
- Maria Angela Savastano- Museu Vivo do Folclore/ Ecomuseu dos Campos de S. José – SP
- Maria Emília Medeiros de Souza - Ecomuseu de Itaipu - PR

CONSELHO CONSULTIVO:
- Hugues de Varine – França
- Maria Célia Teixeira Moura Santos – BA
- Maria de Lourdes Parreiras Horta - RJ


SUPLÊNCIA

SUPLENTES ( Diretoria):
- Cláudia Feijó - M C. da Lomba do Pinheiro - POA-RS-; Márcia Souza –
Museu de Favela MUF –RJ; Valda de Oliveira Fagundes – Blumenau – Ecomuseu Dr. Agobar Fagundes –SC; Vinícius de Araújo
Pacheco- Ecomuseu da Amazônia-PA ;Walter Vieira Priosti – Ecomuseu de Santa Cruz - RJ

SUPLENTES ( Conselho Fiscal): Antônio Marcos Passos de
Oliveira – BA; Dayse Aderne - RJ; Eráclito Pereira –Viés Cultural -SC ; Flávia Munholi Diamante – Ecomuseu dos Campos de
São José - SP; Jorge Abrunhosa – Ecomuseu de Maranguape – CE;

SUPLENTES (Conselho Consultivo):
Davidson Panis Kaseker- SP; Teresa Morales – México ; Zita Possamai -RS

 Foto: Tiago Rodrigues

Triste, muito triste, após "obras de reabilitação ambiental" é neste estado que encontra-se a praia de Sepetiba...

Contra fatos, não há argumentos...O que vemos nas fotos a seguir é de causar indignação a qualquer pessoa, pois acreditávamos que seria realizada uma obra de reabilitação de fato, mas o que vimos é uma maquiagem muito mal feita, a água, onde Minc prometeu se banhar no término da obra continua contaminada e recebendo esgoto sanitário sem tratamento, a areia sendo levada pela maré, o que denota como a obra foi mal planejada, a vegetação volta crescer, o cheiro do esgoto, da água em determinados é tão forte que fica insuportável permanecer próximo a praia por mais de 10 minutos, a esquina onde se encontra a nossa saudosa colônia de pescadores Z-15 agora foi apelidada de "esquina do cocô" , ao andarmos pela praia observamos vários trechos onde o tal geotêxtil já é visível, principalmente no trecho da conhecida rua do IATE onde foi aberta uma vala, que despeja esgoto sanitário na praia sem tratamento, embora alguns digam que não, quem mora nas proximidades e passa com frequência por ali verifica pelo odor que a água que é despejada ali é esgoto sem tratamento... triste, muito triste...